CLUBE DOS 100%: AÇÕES DE SIDERURGIA DOBRAM DE VALOR NO ANO

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CLUBE DOS 100%: AÇÕES DE SIDERURGIA DOBRAM DE VALOR NO ANO

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) vem proporcionando ganhos que pareciam extintos. Após encolher por três anos seguidos, seu principal índice registra até agora valorização de mais de 35% em 2016, devido à percepção de que os juros dos países desenvolvidos vão continuar baixos, à mudança do governo brasileiro e aos sinais de alguma melhora na economia local. Com o movimento, algumas ações que compõem o Ibovespa já dobraram de valor de janeiro até agora — algo inédito, para período de tempo semelhante, desde 2009, ano em que a Bolsa brasileira disparou. O setor de siderurgia, que vinha beijando a lona dos pregões nos anos anteriores, domina o restrito grupo de companhias com alta superior a 100%, acompanhado pela não menos combalida Petrobras. Segundo analistas, quem não pôde aproveitar a disparada desses papéis ainda tem tempo, mas os ganhos serão menores, e os riscos de prejuízo com essa aposta crescem a cada dia.

A companhia com maior valorização do ano no Ibovespa é a siderúrgica Usiminas PNA (papel preferencial, sem direito a voto), com alta de 134,2%, seguida por suas rivais Metalúrgica Gerdau PN (holding da siderúrgica de mesmo nome), que subiu 120,8%, e CSN ON (ação ordinária, com voto), que avançou 117,7%.

Entre as razões que explicam os saltos estão os primeiros indícios de que a economia brasileira está saindo do fundo do poço — como a primeira alta dos investimentos após mais de dois anos e a expansão da indústria no segundo trimestre —, o que favorece primeiro a indústria de base, observou o diretor da Escola de Investimentos Leandro & Stormer, Alexandre Wolwacz. E a perspectiva de queda de juros favorece essas empresas, que são muito endividadas e dependentes de investimentos volumosos, além de ampliar a demanda por aço, já que também estimula o consumo de bens duráveis, explica Lenon Borges, analista da Ativa Investimentos.

— Também foi determinante a indicação de que a China está mais propensa a reduzir a capacidade de suas usinas e diminuir os subsídios àquelas que dão prejuízo. Isso levou a uma valorização do preço do aço no mercado global (de 35%, em média, no ano) — afirma Borges. — Há ainda notícias específicas de cada empresa. Na Usiminas, houve aporte de R$ 1 bilhão pelos acionistas em julho, quando a empresa estava quase pedindo recuperação judicial.

Além disso, os analistas lembram que esses papéis foram os que mais sofreram na Bolsa recentemente. A Usiminas, por exemplo, despencou 69% em 2015 e 65% em 2014. O principal motivo foi a desaceleração da China, que consome mais da metade do aço do mundo e também é grande produtora. A crise brasileira só piorou a situação.

No mais recente relatório sobre siderurgia da BB Investimentos, publicado em agosto, o analista-chefe Victor Penna afirmou que “o setor pode estar diante do começo de uma recuperação” e que “as ações de companhias de aço podem ainda registrar forte movimento de alta durante a segunda metade de 2016”. Mas ressaltou que as empresas estão rodeadas de riscos.

Penna citou como riscos a disputa entre os acionistas da Usiminas, a elevada alavancagem da CSN e a dívida da Gerdau que vai vencer em 2017, “que coloca em risco a saúde financeira da companhia.”

De fato, nem todas as empresas do setor gozam da mesma situação. Com relação à Usiminas PNA, dos oito analistas de grandes bancos que divulgaram relatórios sobre a companhia de agosto até agora, um sustenta que o desempenho do papel tende a ser melhor que o do setor; seis têm avaliações neutras ou de manutenção; um aconselha a venda. Dos três analistas que avaliaram a Metalúrgica Gerdau PN recentemente, dois veem desempenho acima da média, enquanto um dá recomendação neutra.

A CSN ON é a pior avaliada: todos os oito analistas recomendam expressamente a venda do papel ou preveem desempenho inferior ao do setor e ao do restante do mercado.

Em seu último relatório, o JP Morgan comentou que a geração de caixa da divisão de aço da CSN teve queda trimestral de 12%, bem abaixo das estimativas, por causa de custos maiores e preços abaixo do previsto. Já o Banco do Brasil (BB) chamou atenção para a velocidade do plano de venda de ativos da siderúrgica, que tem deixado a desejar. A relação entre a dívida líquida e a geração de caixa também preocupa: é de 8,2, quando 2,5 são considerados saudáveis.

“A venda de ativos se torna a melhor alternativa para fortalecer o balanço e reduzir a alavancagem”, escreveu o analista do BB.

O preço-alvo médio estimado pelos analistas para o fim do ano é de R$ 5, bem abaixo dos quase R$ 9 de hoje.

Borges, da Ativa, considera a Gerdau uma oportunidade:

— Ainda dá tempo, sobretudo no caso da Gerdau PN (que tem a Metalúrgica Gerdau como holding e subiu 87% no ano). Esse papel continua com cotação 50% abaixo do seu valor contábil. Vemos um novo ciclo de alta do PIB vindo pelos investimentos. Isso passa pela cadeia de aços longos, que é dominada pela Gerdau.

Quanto a Usiminas e CSN, o analista ressalta que a queda dos juros futuros melhorou a situação delas, mas o risco continua muito elevado. A Usiminas, por exemplo, sofre com uma disputa aparentemente interminável entre seus principais sócios, enquanto a CSN é muito focada na cadeia de aços planos, que Borges julga demasiadamente dependente do setor de consumo, ainda pressionado.

— Essas ações estão começando a chegar no preço justo, porque subiram demais. Acho que há espaço para andarem mais, só que isso dependerá da percepção sobre a economia de 2017 — afirma Raphael Figueredo, analista da corretora Clear. — Não há mais espaço para subir apenas porque parou de piorar. O investidor estrangeiro só voltará a comprar papéis brasileiros se vir avanços na agenda fiscal e se a inflação e os juros cederem. Se isso acontecer, os materiais básicos vão para a cabeça.

JÁ AS EXPORTADORAS...
Depois do setor de siderurgia, a ação que mais ganhou no ano foi a Petrobras PN, com salto de 104,3%. Além das outras razões que explicam a melhora do mercado como um todo, a companhia foi favorecida pela recuperação do petróleo de meados de janeiro para cá (alta de 38% do barril do tipo Brent) e pela troca no comando da estatal, que foi bem avaliada por investidores. Recentemente, o plano de negócios prevendo o corte de 25% no investimento e a venda de US$ 19,5 bilhões até 2018 levou a um upgrade na avaliação do papel pelos analistas.

Entre os relatórios de bancos publicados a partir de agosto, três recomendam expressamente a compra, e um afirma que a perspectiva para a companhia é melhor que a do mercado como um todo. Três avaliações são neutras, e apenas um analista aconselha a venda. Figueredo, da Clear, vê a possibilidade de o papel, cotado hoje em R$ 13,69, passar de R$ 15,70 e até mesmo atingir R$ 17 no fim do ano.

Mas quem busca ganhos com ações também pode olhar para o lado oposto da tabela. Dos 58 papéis do Ibovespa, oito registram queda no ano. As companhias exportadoras monopolizam a lista — como Fibria (queda de 56,8%), Klabin (27,9%), Suzano (46,4%) e Embraer (49,8%) —, prejudicadas pelo tombo de quase 19% do dólar.

— O setor está ficando bastante atraente, pois o dólar começa a chegar perto de um nível de equilíbrio, entre R$ 3,20 e R$ 3. Nessa faixa, pode começar a surgir algum sinal de pressão compradora — analisa Wolwacz.

Fonte: O Globo



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